A celebração pelos mortos no filme: A vida é uma festa!

O filme “Coco” (2017), lançado no Brasil com o título “Viva — A Vida é uma Festa”, da Disney/Pixar, tornou-se um fenômeno cultural ao retratar a tradição mexicana do Día de los Muertos (Dia dos Mortos). Com uma narrativa emocionante, personagens memoráveis e uma trilha sonora envolvente, o filme aborda temas profundos como a morte, a memória dos entes queridos, a família e o significado da vida. Para um olhar católico, esta obra cinematográfica oferece uma rica oportunidade de reflexão sobre a fé, a comunhão dos santos e a esperança na ressurreição.

A Igreja Católica, ao longo de seus dois mil anos de história, sempre tratou os temas da morte e da vida eterna com profundidade teológica e pastoralismo espiritual. A própria data do Dia de los Muertos tem raízes na solenidade cristã de Todos os Santos (1º de novembro) e na Commemoratio Omnium Fidelium Defunctorum — o Dia dos Fiéis Defuntos (2 de novembro). Assim, o filme, embora produzido pela indústria do entretenimento secular, dialoga — às vezes inconscientemente — com verdades que a fé cristã proclama há séculos.

Miguel, um menino mexicano apaixonado por música, sonha em se tornar um grande músico como seu ídolo, o lendário Ernesto de la Cruz. No entanto, sua família, traumatizada por um ancestral que abandonou a esposa e os filhos para seguir a carreira artística, proibiu estritamente a música de seu lar. Na noite do Dia de los Muertos, em um encadeamento de eventos extraordinários, Miguel é transportado para a “Terra dos Mortos”, onde encontra os espíritos de seus antepassados e descobre verdades surpreendentes sobre a história de sua família.

A jornada de Miguel pela Terra dos Mortos é, em essência, uma metáfora sobre a importância da memória, do amor familiar e da verdade. O filme ensina que os mortos permanecem vivos enquanto são lembrados, e que o amor transcende as fronteiras entre a vida e a morte. Estes são conceitos que, embora apresentados dentro de uma cosmologia cultural mexicana e indígena, ressoam de maneira singular com a doutrina católica sobre a comunhão dos santos e a oração pelos mortos.

Um dos elementos mais profundos do filme é a ideia de que os mortos permanecem conectados aos vivos por meio da memória e do amor. No universo do filme, os espíritos experimentam a “morte final” apenas quando são completamente esquecidos pelos vivos. Embora esta seja uma concepção cultural específica, ela dialoga com o ensinamento católico sobre a Communio Sanctorum — a Comunhão dos Santos.

O Catecismo da Igreja Católica ensina: “A Igreja dos que estão em caminho”, “a Igreja do Purgatório” e “a Igreja da Glória” formam juntas uma única Igreja. (CIC, n. 962). Vivos e mortos em Cristo estão unidos em um único corpo místico. Por isso, a Igreja encoraja os fiéis a rezar pelos mortos e a honrar os santos — não como um culto à morte, mas como uma celebração da vida eterna.

São Paulo, na Segunda Carta aos Tessalonicenses, consola a comunidade com estas palavras: “Não queremos, irmãos, que ignoreis a sorte dos que morreram, para que não vos aflijais como os outros, que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus há de ressuscitar com ele os que morreram em Jesus” (1Ts 4,13-14).

Ao longo do filme, a família Rivera é retratada como o principal eixo da narrativa. Apesar dos conflitos, dos desentendimentos e das mágoas herdadas entre gerações, é o amor familiar que, ao final, tudo transforma e redime. Esta visão é profundamente consonante com o ensino católico sobre a família como “Igreja doméstica”.

O Papa São João Paulo II, na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, afirmou: “A família é a célula básica da sociedade. É o berço da vida e do amor, onde o ser humano nasce e cresce. É necessário promover e valorizar a família, reconhecendo seus direitos e suas necessidades.” 

O filme mostra, com uma narrativa comovente, que as feridas intergeracionais podem ser curadas pela verdade e pelo perdão. O perdão que a bisavó Mamá Imelda estende ao marido ausente ao final do filme ecoa o chamado evangélico: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6,12).

O título do filme — “A Vida é uma Festa” — carrega em si uma afirmação profunda. Para o cristão, a vida é, de fato, uma dádiva a ser celebrada com gratidão. O Catecismo da Igreja Católica ensina que a morte, para o cristão, não é o fim, mas uma passagem: “O sentido cristão da morte manifesta-se à luz do mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo, que é a única esperança do cristão” (CIC, n. 1681).

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, convida toda a Igreja a viver com uma alegria que não é superficial, mas profundamente enraizada na fé: “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus.” (EG, n. 1). O livro do Eclesiástico já ensinava: “Não te prive de um dia feliz; não passe além de ti a porção de um desejo legítimo” (Eclo 14,14). A vida é, sim, uma festa — uma celebração de graça, de amor e de esperança que encontra seu cumprimento pleno na vida eterna.

Como fiéis, é necessário também exercer o discernimento ao apreciar obras culturais que, embora ricas em valores universais, partem de cosmovisões distintas da fé cristã. O filme “Coco” apresenta alguns elementos que merecem atenção crítica:

  • A cosmologia do além-vida no filme “A Terra dos Mortos” retratada é fundamentalmente diferente do que a Revelação cristã anuncia. A fé católica proclama o Purgatório, o Céu e o Inferno como realidades escatológicas, e a ressurreição da carne como destino final do ser humano. O CIC (n. 1023-1037) apresenta estas verdades de forma clara. 
  • A ausência de Deus na narrativa: Notavelmente, o filme não faz qualquer referência à dimensão religiosa ou a Deus. A morte e o além são tratados como fenômenos puramente naturais e familiares, sem a esperança teologal que a fé cristã oferece. Para o católico, a morte é sempre vista em referência a Deus: “Seja que vivamos, para o Senhor vivemos; seja que morramos, para o Senhor morremos” (Rm 14,8).
  • Sincretismo cultural: O Día de los Muertos, tal como retratado no filme, mistura elementos da religiosidade popular mexicana com elementos pré-colombianos e cristãos. A Igreja reconhece o valor das culturas, mas também convida ao discernimento. O Decreto Ad Gentes do Concílio Vaticano II afirma a necessidade de “purificar e elevar” as culturas à luz do Evangelho.

O filme, ao tornar a morte visualmente colorida, festiva e cheia de vida, faz algo que a espiritualidade cristã também propõe: retirar do horizonte da morte o peso paralisante do terror. São Francisco de Assis, no Cântico das Criaturas, chamou a morte de “Irmã morte” — não porque a banalizasse, mas porque, na fé, ela é redimida por Cristo. 

O Catecismo nos lembra: “É belo morrer no Senhor” e que a morte é o último sacramento de passagem, o definitivo encontro com Deus. O Papa Bento XVI, na Encíclica Spe Salvi, escreveu: “O homem não é feito para o efêmero. Tem sede de infinito, tem nostalgia de eternidade.” (SS, n. 11). Esta sede de infinito que Bento XVI identifica é exatamente o que o filme toca, de forma intuitiva. Ele mostra um menino que não consegue suprimir o que há de mais profundo em sua alma — mesmo quando tudo ao seu redor lhe diz para desistir. É o eco daquilo que Santo Agostinho expressou de forma imortal: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto, enquanto não repousar em Ti” (Confissões, I, 1).

A premissa central do filme — que os mortos “morrem de vez” quando não são mais lembrados — aponta para uma verdade espiritual que a Igreja também ensina: a memória dos mortos é um ato de amor e de piedade. É por isso que a Igreja institui o Dia dos Fiéis Defuntos, por isso celebra missas em sufrágio dos mortos, por isso reza o terço pelos falecidos. O Catecismo ensina que a oração pelos mortos é uma das obras de misericórdia espiritual: “A Igreja recomenda também as esmolas, as indulgências e as obras de penitência em favor dos defuntos” (CIC, n. 1032). Lembrar e rezar pelos mortos é muito mais do que guardar memória afetiva — é interceder por eles perante Deus.

O livro do Eclesiástico exorta: “Honra teu pai e tua mãe… para que a bênção deles firme as fundações de tuas casas” (Eclo 3,3-7). E o próprio Decálogo consagra: “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias” (Ex 20,12). Honrar os que nos geraram — inclusive os que já partiram — é mandamento divino.

O Santo Padre Papa Francisco, na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, destaca a importância do diálogo familiar sobre a morte: “É urgente recuperar o sentido da memória familiar, da história das gerações, pois é aí que a identidade se forja e o amor se aprende.” 

“A Vida é uma Festa” é, em seu núcleo mais profundo, um filme sobre amor. O amor que persiste além da morte, o amor que cura feridas antigas, o amor que dá sentido à vida e à arte. E é exatamente esta mensagem que o Evangelho de Jesus Cristo proclama com muito mais radicalidade e profundidade: Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus. Como afirma o apóstolo São João: “Quem não ama, não conheceu a Deus, porque Deus é amor” (1Jo 4,8). A verdadeira “festa” que a vida oferece não é apenas a celebração efêmera dos dias que passam. É a antecipação do Banquete Eterno que Deus prepara para todos os que O amam — aquela Festa sem fim, de que as festas terrenas são apenas um pálido reflexo.

No Apocalipse, o próprio Cristo nos promete: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3,20). A vida, para o cristão, é, de fato, uma festa. Isso ocorre porque é o tempo de preparação para a grande Festa da eternidade, em que os véus serão rasgados, todas as lágrimas serão enxugadas, e o amor que semelhantemente nunca passa se tornará, enfim, nosso lar definitivo.

Referências Bibliográficas 

  • Bíblia Sagrada, tradução da CNBB. 
  • Catecismo da Igreja Católica. 
  • Viva-A vida é uma festa/Netflix
  • Francisco, Papa. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Vaticano, 2013.
  • Francisco, Papa. Exortação Apostólica Amoris Laetitia. Vaticano, 2016.
  • João Paulo II, Papa. Exortação Apostólica Familiaris Consortio. Vaticano, 1981.
  • Bento XVI, Papa. Encíclica Spe Salvi. Vaticano, 2007.
  • Concílio Vaticano II. Decreto Ad Gentes. Vaticano, 1965.
  • Agostinho de Hipona Confissões. São Paulo: Paulus, 2004.
  • Francisco de Assis, São. Cântico das Criaturas. In: Escritos e Biografias de São Francisco de Assis. Petrópolis: Vozes, 2006.
  • Unkrich, Lee; Molina, Adrian (dirs.). Coco [Viva – A Vida é uma Festa]. Disney/Pixar, 2017.

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