Lançado no Natal de 2020 pela Pixar e Disney, Soul surpreendeu o mundo não apenas pela excelência de sua animação ou pela envolvente trilha sonora de jazz, mas sobretudo pela mensagem filosófica e espiritual de sua proposta. Em um tempo marcado pela pandemia e por certo esvaziamento existencial, a obra do diretor Pete Docter surgiu como um convite ao silêncio interior, à contemplação e à gratidão pela vida. Para o cristão, e, em especial, para o católico, o filme oferece um terreno fértil de reflexão.
Joe Gardner é um professor de música do ensino médio em Nova York que sonha em se tornar pianista de jazz. No dia em que finalmente recebe a grande chance de sua vida — tocar ao lado de uma famosa saxofonista —, sofre um acidente e sua alma é lançada para o além. Recusando-se a aceitar a morte, Joe acaba no Grande Antes, lugar onde as almas se preparam para nascer. Lá conhece 22, uma alma antiga e rebelde que jamais encontrou sua “faísca” e que se recusa, há séculos, a vir ao mundo.
A jornada dos dois personagens os conduz à descoberta, cada um à sua maneira, do que realmente significa estar vivo. Joe percebe que passou a vida inteira perseguindo um sonho e esqueceu de viver. Já 22 descobre que a “faísca” que tanto buscava, não era uma grande missão nem um talento extraordinário, mas o encantamento diante das pequenas coisas do cotidiano: a brisa no rosto, o sabor de uma pizza, as folhas de outono.
O próprio título do filme nos convida a uma reflexão essencial para a antropologia católica: o que é a alma? A palavra inglesa soul traduz o hebraico néfesh, o grego psyché e o latim anima — termos que atravessam a Escritura e toda a tradição da Igreja. “A alma é o que há de mais profundo no homem: aquilo pelo qual ele é semelhante a Deus segundo a sua imagem.” (Catecismo da Igreja Católica, n. 363)
O Catecismo é claro ao afirmar que “o espírito e a matéria não são duas naturezas unidas, mas a sua união forma uma única natureza” (CIC 365). O ser humano não é apenas um corpo com alma, nem uma alma aprisionada em um corpo: é uma unidade substancial, criada à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27). Nesse ponto, o filme parte de uma premissa distinta — a preexistência da alma em relação ao corpo —, o que não é compatível com a doutrina católica. Ainda assim, isso não nos impede de acolher o que a obra tem de verdadeiro: a alma é real, é o centro da pessoa e possui dignidade inalienável. “Antes de te formar no seio materno, eu te conhecia; antes de saíres do ventre, eu te havia consagrado.” (Jeremias 1,5)
A cena em que Joe Gardner se recusa a seguir para o além é um retrato poderoso do apego humano à existência. Os Padres da Igreja, de Santo Agostinho a São Tomás de Aquino, sempre reconheceram que o desejo de viver foi inscrito por Deus na natureza humana. Ao mesmo tempo, ensinaram que a vida terrena é passagem, e não destino final. “Criaste-nos para Ti, e o nosso coração vive inquieto enquanto não repousa em Ti” (Santo gostinho, Confissões, I).
Um dos núcleos mais belos e profundos de Soul está na descoberta, tanto por Joe quanto por 22, de que a vida não precisa de grandes realizações para ter valor. Basta estar vivo, perceber o mundo e agradecer. Essa mensagem ressoa fortemente com a espiritualidade católica, que sempre valorizou a contemplação, a atenção ao presente e a gratidão como atitudes fundamentais do discípulo de Cristo. “Rejubilai-vos sempre no Senhor; repito: rejubilai-vos! (…) Em tudo e por tudo aprendi o segredo tanto de me fartar como de passar fome, tanto de ter abundância como de suportar a privação.” (Filipenses 4, 4.12)
O Papa Francisco, na exortação apostólica Evangelii Gaudium (2013), recorda-nos o valor da alegria: “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Aqueles que se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento.” Essa alegria não depende de conquistas externas, mas nasce de um relacionamento vivo com o Deus que nos criou. Soul aponta para essa verdade, ainda que sem nomear Deus explicitamente.
A cena em que a alma 22, no corpo de Joe, experimenta pela primeira vez as sensações do mundo — o vento, o cheiro da comida, a música — e as vive como revelações, é um chamado à contemplação. O Papa João Paulo II, na encíclica Fides et Ratio (1998), afirmou que a admiração que impulsiona a filosofia é a mesma que impulsiona a fé: o espanto diante do ser e da existência. “Cada momento é um dom.” “Este é o dia que o Senhor fez: alegremo-nos e nele exultemos!” (Salmo 118,24)
Soul também traz uma advertência profética para a cultura contemporânea: o perigo de transformar o propósito de vida em ídolo. Joe Gardner passou anos obcecado com o sonho de ser pianista. Quando finalmente o realiza, experimenta um vazio imenso. “Esperei por este dia durante toda a minha vida. Achei que me sentiria diferente”, confessa. A idolatria do sucesso, do talento ou da realização profissional deixa a alma vazia, porque nenhuma criatura pode ocupar o espaço que só Deus preenche. “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?” (Marcos 8,36)
O Catecismo da Igreja Católica é luminoso nesse ponto: “O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem para si, e só em Deus o homem encontrará a verdade e a felicidade que não cessa de procurar” (CIC 27). A “faísca” que o filme procura pode ser entendida, à luz da fé, como essa abertura radical da criatura ao Criador: a vocação a amá-Lo e a amar o próximo.
O filme também apresenta as chamadas “almas perdidas”: pessoas que, em algum momento, se tornaram tão absorvidas por sua atividade que perderam o contato com a vida real. Essa imagem evoca o que os Padres da Igreja chamavam de acídia — uma espécie de tristeza espiritual e de fuga do presente —, bem como a cultura contemporânea do workaholism, frequentemente criticada pela Doutrina Social da Igreja. Trabalho e talento são dons de Deus, mas jamais devem ocupar o centro da existência. “Não acumuleis para vós tesouros na terra (…). Onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” (Mateus 6,19-21)
Soul trata com coragem do tema da morte. Desde os primeiros minutos, ela aparece como uma realidade concreta, e não como algo escamoteado. Isso é incomum numa cultura que tende a ignorar, embelezar ou negar a finitude humana. O filme imagina um “Grande Além” e um “Grande Antes” que não coincidem com a visão católica, mas abre a questão que a fé responde com clareza: a morte não é o fim. “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.”(João 11,25)
O Catecismo da Igreja Católica ensina que “a morte é o fim da peregrinação terrena do homem, do tempo de graça e de misericórdia que Deus lhe oferece para realizar a sua vida terrena segundo o desígnio divino” (CIC 1013). A vida não termina: transforma-se. Essa esperança, ancorada na Ressurreição de Cristo, é o grande diferencial da visão cristã diante de qualquer outra cosmologia, inclusive a do filme.
O Papa Bento XVI, na encíclica Spe Salvi (2007), recorda que “a nossa esperança é sempre, no fundo, uma esperança para os outros; só assim ela é realmente esperança também para mim” (SS 48). A cena final de Soul, em que Joe recebe uma segunda chance de viver e decide aproveitá-la com mais presença e gratidão, deve ser lida com cautela: para nós, católicos, não há reencarnação, mas ressurreição, como Cristo ressuscitou.
A honestidade exige que se indiquem também os pontos em que Soul se afasta da doutrina católica. O filme apresenta uma cosmovisão sincrética, com elementos do espiritismo, como a ideia de almas que aguardam encarnar do budismo, especialmente na valorização da meditação e da presença plena e de filosofias new age. A existência de um “Grande Antes”, no qual as almas preexistem ao nascimento, é incompatível com o ensinamento da Igreja sobre a criação de cada alma por Deus no momento da concepção.
Além disso, o filme não apresenta Deus, não faz referência à salvação em Cristo e não propõe qualquer forma de oração, arrependimento ou graça. O universo espiritual da obra é impessoal, burocrático e sem um Criador pessoal que ame. Para o cristão, a vida tem sentido porque há um Deus que a ama e a sustenta em cada instante. Sem essa ancoragem, a mensagem do filme, por mais bela que seja, permanece incompleta.
“É necessário, antes de tudo, afirmar que o homem só pode ser compreendido na sua plenitude a partir de Cristo. Sim, o homem permanece incompreensível para si próprio; a sua vida é privada de sentido se Cristo não lhe for revelado.” (São João Paulo II, Redemptor Hominis, n. 10)
A Congregação para a Doutrina da Fé, no documento Jesus Cristo, Portador da Água da Vida (2003), alerta para o crescimento das espiritualidades new age, que propõem uma visão de alma e de cosmos fora da revelação cristã.
O Papa Francisco, na exortação apostólica Christus Vivit (2019), convida a Igreja a entrar em diálogo com a cultura jovem, inclusive com o cinema: “A Igreja precisa olhar os olhos dos jovens, ouvir sua música, entrar em sua linguagem.” Soul fala a linguagem da geração digital, que busca sentido em um mundo fragmentado. A proposta cristã pode — e deve — entrar nesse diálogo. “Sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada no cume de um monte.”(Mateus 5,14)
A cena em que Joe, após sua aventura, decide viver “a vida que lhe resta” com mais atenção, presença e gratidão é um convite implícito à conversão. Para o cristão, essa conversão tem nome: Metanoia, mudança de mentalidade, retorno a Deus. O filme não o diz explicitamente, mas sugere esse caminho. E é aí que o evangelizador pode entrar, completando com a plenitude da Boa Nova aquilo que a arte deixou em aberto.
No fim das contas, a pergunta que Joe Gardner faz implicitamente ao longo do filme — “para que serve minha vida?” — é a mesma que a Igreja acolhe com ternura e responde com a grandeza da Revelação: a vida serve para conhecer, amar e servir a Deus neste mundo, e ser feliz com Ele para sempre. Essa é a faísca que nenhuma animação pode apagar.
“A glória de Deus é o homem que vive; e a vida do homem é a visão de Deus.” (Santo Ireneu de Lyon, Adversus Haereses)
Referências:
- Catecismo da Igreja Católica
- FRANCISCO, Papa. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium
- FRANCISCO, Papa. A Exortação Apostólica Christus Vivit
- JOÃO PAULO II, Papa. Encíclica Fides et Ratio
- JOÃO PAULO II, Papa. Encíclica Redemptor Hominis
- BENTO XVI, Papa. Encíclica Spe Salvi
- Bíblia de Jerusalém.
- SOUL. Direção: Pete Docter. Produção: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2020. (100 min).




