Nos últimos anos, os doramas — séries dramáticas sul-coreanas — conquistaram um enorme público no Brasil, especialmente entre as mulheres. Com enredos envolventes, romances idealizados, cenários deslumbrantes e personagens aparentemente perfeitos, esses dramas parecem ser apenas uma forma leve de entretenimento. No entanto, como cristãos católicos, somos chamados a discernir com sabedoria tudo o que consumimos, pois “não nos conformemos com este mundo, mas transformemo-nos pela renovação da nossa mente, para podermos discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12,2).
O que à primeira vista parece inofensivo pode, na verdade, gerar uma profunda alienação da realidade e o cultivo de fantasias que afastam do coração de Deus. A Igreja, atenta aos meios de comunicação social, oferece-nos luzes preciosas para este discernimento.
O encanto das fantasias e a sedução da imaginação, frequentemente apresentam amores perfeitos, heróis impecáveis e finais felizes que contrastam fortemente com as dificuldades da vida cotidiana. Essa imersão cria um mundo paralelo no qual o espectador se projeta, nutrindo expectativas irreais sobre o amor, o casamento, a amizade e a própria existência.
A Sagrada Escritura orienta-nos claramente: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama; se há algo de excelente ou digno de louvor, seja isso o objeto dos vossos pensamentos” (Fl 4,8). Quando a mente se fixa em fantasias que não correspondem à verdade da vida humana, marcada pela Cruz e pela graça redentora e libertadora, afastamo-nos do que é puro e verdadeiro.
O Catecismo da Igreja Católica recorda que “a pureza exige o domínio dos pensamentos e da imaginação” (CIC 2514). As fantasias geradas pelos doramas, ao contrário, alimentam a imaginação com imagens e histórias que distorcem a visão do outro e do amor. Em vez de nos auxiliar a “ver segundo Deus” (CIC 2520), elas nos levam a tratar o próximo como objeto de desejo idealizado, abrindo caminho para a concupiscência que, “tendo concebido, dá à luz o pecado” (Tg 1,15).
Além disso, “a pureza do coração é condição prévia para a visão” (CIC 2517) e “a pureza cristã exige uma purificação do ambiente social”, inclusive dos meios de comunicação (CIC 2528). Quando permitimos que séries romantizadas invadam nossa mente, enfraquecemos essa pureza tão necessária para caminhar rumo à santidade.
Além das fantasias, os doramas promovem uma sutil alienação. Horas são dedicadas a maratonas intermináveis, enquanto a oração, a vida familiar, o estudo, o trabalho e as obras de caridade ficam em segundo plano. O espectador acaba vivendo mais “dentro” da série do que na realidade que Deus lhe confiou.
O Catecismo é claro ao alertar: “Os meios de comunicação social (em particular as plataformas de streaming), fazendo deles consumidores pouco cautelosos de mensagens e espetáculos” (CIC 2496). Essa passividade não é neutra: ela aliena o fiel da vida concreta, da caridade ativa e da presença de Deus no dia a dia.
Em vez de “aproveitar bem o tempo, porque os dias são maus” (Ef 5,16), gasta-se o tempo precioso em sonhos que não constroem o Reino de Deus. São Paulo nos exorta com vigor: “Pensai nas coisas do alto e não nas da terra” (Cl 3,2). Quando o coração se apega a personagens fictícios, ele se afasta do tesouro verdadeiro: “Pois onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Mt 6,21).
Muitos jovens católicos hoje relatam insatisfação com a vida real, dificuldade em estabelecer relacionamentos autênticos e até afastamento da Missa e dos sacramentos por causa dessa imersão excessiva. E as consequências vão além do tempo perdido. As fantasias românticas podem gerar insatisfação no matrimônio, comparação constante com atores idolatrados e tentações contra a castidade. O Catecismo ensina que “a pureza do coração liberta o homem da sensualidade desenfreada que o escraviza e o impede de encontrar a verdadeira felicidade” (CIC 2529). Alimentar fantasias que contradizem a doutrina sobre o amor conjugal, a fidelidade e a abertura à vida enfraquece a graça batismal e dificulta o crescimento na virtude da castidade, que “é o domínio das faculdades da vida e dos sentimentos do homem” (CIC 2531).
São João é direto no seu alerta: “Não ameis o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1Jo 2,15). Embora alguns doramas possam conter valores como perseverança ou lealdade, muitos romantizam relações prematuras, aborto, traições ou um hedonismo sutil, elementos incompatíveis com o Evangelho de Cristo.
A Igreja não condena o entretenimento em si, mas exige um uso responsável e vigilante dos meios de comunicação. Como ensina o Catecismo, todos os membros da sociedade devem “utilizar os meios de comunicação social no sentido de concorrer para a formação e difusão de uma recta opinião pública” (CIC 2495), e isso inclui o fiel que busca a santidade.
Como católicos, somos chamados a:
- Exercer moderação e disciplina no consumo de doramas, escolhendo apenas aqueles que respeitem a dignidade humana e a moral cristã;
- Substituir parte desse tempo por leitura espiritual, oração do Terço, Adoração Eucarística e convívio familiar;
- Cultivar a “pobreza de coração” (Mt 5,3), que nos liberta das ilusões mundanas.
Jesus nos garante: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6,33). A verdadeira alegria não se encontra em fantasias coreanas passageiras, mas na vida sacramental, no serviço ao próximo e na intimidade profunda com Cristo.
Que Nossa Senhora, Rainha da pureza e modelo de vigilância, nos ajude a guardar o coração: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Pv 4,23). Que os doramas não nos alienem da bela realidade que Deus nos deu, mas que, renovados pela graça, vivamos plenamente a vocação à santidade à qual fomos chamados.
Referências Bibliográficas:
Bíblia Sagrada
Catecismo da Igreja Católica






