PACTO, FEITIÇOS E SEXUALIZAÇÃO
A cultura contemporânea, muitas vezes sob o véu da inocência e do entretenimento infantil, apresenta narrativas que, se não passadas pelo crivo do discernimento cristão, podem obscurecer verdades fundamentais sobre a nossa fé e a dignidade humana. O clássico da Disney, A Pequena Sereia, embora celebrado por gerações, carrega em sua trama elementos que merecem uma reflexão profunda à luz das Sagradas Escrituras e do Catecismo da Igreja Católica (CIC). Especificamente, o pacto com a bruxa do mar, a prática da feitiçaria e a sutil, mas perigosa, sexualização da protagonista oferecem um campo fértil para o exame de consciência e a formação doutrinária.
No centro da história de Ariel está o seu desejo desenfreado de pertencer a um mundo que não é o seu, levando-a a buscar soluções fora da ordem estabelecida por seu pai, o Rei Tritão. Ao procurar Úrsula, a bruxa do mar, Ariel entra em um terreno perigoso: o do pacto com as forças das trevas. Na canção “Pobres Corações Infelizes”, Úrsula apresenta-se como uma “benfeitora”, mas o preço cobrado é a própria voz da sereia, um símbolo claro da identidade e da alma.
O Catecismo da Igreja Católica é pontual ao condenar tais práticas: “Todas as formas de adivinhação devem ser rejeitadas: recurso a Satanás ou aos demônios, evocação dos mortos ou outras práticas supostamente “reveladoras” do futuro. […] O recurso às chamadas medicinas tradicionais não legitima nem a invocação das potências maléficas, nem a exploração da credulidade alheia.” (CIC 2116-2117)
Ao assinar o contrato de Úrsula, Ariel comete o erro de acreditar que pode “comprar” a sua felicidade por meio da magia. Na Bíblia, o livro do Deuteronômio adverte severamente: “Não se ache no meio de ti quem […] se dê à adivinhação, à astrologia, aos agouros, ao feitiço” (Dt 18, 10-12). O pacto com Úrsula não é apenas um recurso narrativo; é uma representação da tentação humana de substituir a Providência Divina por atalhos ocultistas que, invariavelmente, escravizam o homem.
A feitiçaria no filme não é apresentada como um mal absoluto, mas como um “serviço” disponível para aqueles que estão desesperados. Úrsula utiliza-se da fragilidade emocional de Ariel para selar um acordo que visa, em última análise, a destruição da ordem e a usurpação do poder. Para o cristão, a magia é uma tentativa de manipulação do sagrado e da natureza para fins egoístas, o que se opõe diretamente à virtude da religião. São Paulo, na Carta aos Gálatas, inclui a “feitiçaria” entre as obras da carne que impedem a herança do Reino de Deus (Gl 5, 19-21). Ao romantizar a figura da bruxa ou a eficácia do feitiço, a cultura dilui a gravidade do pecado de superstição, que, segundo o Catecismo, é um “excesso perverso de religião”(CIC 2111).
Um dos pontos mais críticos e menos discutidos é a forma como a feminilidade e a conquista são apresentadas no filme. Quando Ariel questiona como poderá conquistar o príncipe sem a sua voz, Úrsula responde com uma malícia pedagógica: “Você tem sua aparência, seu rosto encantador. E não subestime a importância da linguagem corporal!”. Esta sugestão de que a mulher deve abdicar da sua inteligência, da sua voz e da sua alma para se tornar um objeto de desejo visual é uma afronta à dignidade da pessoa humana. A Igreja ensina que o corpo é o “templo do Espírito Santo” (1 Cor 6, 19), e que a sua beleza deve ser um reflexo da alma, não um instrumento de sedução manipuladora.
O Catecismo também aborda a virtude da pureza e do pudor como essenciais para a proteção do mistério das pessoas: “O pudor protege o mistério das pessoas e do seu amor. […] Inspira a escolha do vestuário. Mantém o silêncio ou a reserva onde se adivinha o risco de uma curiosidade doentia. Torna-se descrição. (CIC 2521-2522)
A “linguagem corporal” sugerida por Úrsula é o oposto do pudor cristão. Ela promove uma sexualização precoce e uma visão utilitarista do corpo feminino, em que a “conquista” se justifica pela perda da própria voz. Diferente da versão original de Hans Christian Andersen, em que o sacrifício da Pequena Sereia tem nuances de busca pela imortalidade da alma, a versão cinematográfica foca na satisfação de um desejo romântico a qualquer custo. Como católicos, somos chamados a discernir que o amor verdadeiro não nasce de pactos sombrios ou da exploração da sensualidade, mas do dom de si e da obediência à vontade de Deus.
Que possamos educar as nossas crianças para que vejam além das cores e das canções. Reconhecendo que a nossa voz — a nossa capacidade de louvar a Deus e expressar a verdade — é um dom precioso que jamais deve ser trocado por pernas que nos levem para longe da graça divina.
Referências:
Bíblia Sagrada.
www.youtube.com/apequenasereia.






