O Perigo do Ocultismo nos Desenhos Infantis

A infância é um período crucial para a formação da alma humana, um terreno fértil onde as sementes lançadas na imaginação podem florescer em virtudes ou em influências espirituais prejudiciais. No cenário cultural contemporâneo, observa-se uma tendência preocupante: a banalização da bruxaria e do ocultismo em produções destinadas ao público infantil. O que antes era claramente identificado como maléfico, hoje é frequentemente apresentado sob uma roupagem de “empoderamento”, “diversão” e até “bondade”. 

Para os cristãos, a Sagrada Escritura é a Palavra Viva de Deus, um guia infalível para a vida. Desde o Antigo Testamento, o Senhor adverte categoricamente sobre os perigos das práticas ocultas. No livro do Deuteronômio, encontramos um dos avisos mais severos: “Não se ache no meio de ti quem faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, nem quem se dê à adivinhação, à astrologia, aos agouros, ao feiticismo, à magia, ao espiritismo, aos vaticínios ou à invocação dos mortos. Porque o Senhor abomina quem faz tais coisas” (Dt 18, 10–12). 

Esta proibição divina não é um ato de autoritarismo arbitrário, mas um gesto de Paternidade Divina. Deus, em Sua infinita sabedoria, sabe que a busca por poderes ocultos é, em última análise, uma rebelião contra a Sua Providência. Ao tentar “domar” forças espirituais para benefício próprio, o ser humano se afasta da confiança filial no Criador e se abre à influência do “pai da mentira” (Jo 8, 44). 

Muitos pais, influenciados pelo relativismo moderno, podem acreditar que existe uma distinção entre “magia negra” e “magia branca”. No entanto, o Catecismo da Igreja Católica (CIC) é claro ao desfazer essa ilusão no parágrafo 2117: “Todas as práticas de magia ou de feitiçaria, pelas quais se pretende domar os poderes ocultos para os pôr ao seu serviço e obter um poder sobrenatural sobre o próximo — ainda que seja para lhe dar a saúde — são gravemente contrárias à virtude da religião. Tais práticas são ainda mais condenáveis quando acompanhadas da intenção de fazer mal a outrem ou quando recorrem à intervenção dos demônios. O uso de amuletos é também repreensível.” (CIC 2117). 

A Igreja ensina que, mesmo quando a intenção parece benéfica (como curar alguém ou salvar o mundo em um desenho animado), o recurso a poderes que não provêm de Deus é uma ofensa à Sua soberania. Nos desenhos infantis, quando vemos protagonistas utilizando feitiços, rituais e invocações para resolver seus problemas, a mensagem subliminar transmitida à criança é que o poder pessoal e o controle sobre o oculto são caminhos legítimos para a felicidade e o sucesso. 

Diferente dos contos de fadas clássicos, nos quais a bruxa era a vilã a ser derrotada (simbolizando o mal que deve ser vencido pela virtude), produções modernas frequentemente apresentam a bruxaria como uma habilidade a ser aprendida, uma carreira ou uma identidade positiva. 

Em The Owl House, a protagonista aprende feitiçaria em um mundo demoníaco, e o ocultismo é uma forma de autoexpressão e liberdade. Já no filme “A Princesa e o Sapo”, a obra apresenta uma presença explícita de rituais de vodu e “amigos do outro lado”; o sobrenatural maligno é apenas uma ferramenta perigosa, mas acessível. Harry Potter, por sua vez, apresenta um sistema complexo de magia, rituais e linhagens de sangue. Em todas essas produções, a mensagem intrínseca é que a magia é algo natural e substituiu a da Graça!

Essa inversão de valores cria uma dessensibilização espiritual. Quando a criança se acostuma a ver o oculto como algo “legal” ou “fofo”, ela perde o temor reverencial a Deus e a prudência necessária diante das realidades espirituais. O perigo não é apenas a criança tentar fazer um feitiço, mas sim o seu coração se tornar permeável a filosofias esotéricas e à negação da soberania divina. 

É fundamental que os pais exerçam seu lugar de primeiros educadores na fé. Nem toda fantasia é nociva; muitas obras utilizam elementos fantásticos para apontar para verdades eternas. A diferença reside na fonte do poder: 

Como educadores e pais católicos, nossa missão é proteger a inocência de nossos pequenos. São Paulo nos exorta: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito” (Rm 12, 2). Em vez de permitir que a imaginação de nossos filhos seja povoada por caldeirões e feitiços, devemos preenchê-la com a vida dos Santos, a beleza da Liturgia e a certeza de que o único e verdadeiro poder que transforma o mundo é o Amor de Cristo. 

Que Nossa Senhora, que esmagou a cabeça da serpente, guarde a pureza de nossas crianças e nos dê a sabedoria para discernir os lobos em pele de cordeiro que habitam as telas de nossas casas. 

Referências

  • Bíblia Sagrada
  • Catecismo da Igreja Católica/8

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