Muitas vezes, pais e educadores utilizam expressões como “essa criança é muito danada!” para se referir a um filho travesso, inquieto ou desobediente. A palavra soa leve, quase carinhosa, no linguajar popular. Porém, do ponto de vista da fé católica, ela carrega um peso grave: “danada” significa “condenada”, “perdida para a danação eterna”. Chamar uma criança assim não é apenas uma brincadeira inocente. É uma contradição profunda com o que a Sagrada Escritura e o Catecismo da Igreja Católica ensinam sobre a dignidade, a inocência e a vocação das crianças.
Desde o início da Revelação, Deus manifesta que os filhos são um dom precioso. O Salmo 127 proclama com clareza: “Os filhos são herança do Senhor, o fruto do ventre é uma recompensa. Como flechas na mão do guerreiro, assim são os filhos nascidos na juventude. Feliz o homem que enche deles a sua aljava!” (Sl 127, 3-5).
O próprio ato da criação revela a dignidade radical de todo ser humano, inclusive das crianças. “Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1,27).
O Catecismo da Igreja Católica aprofunda esta verdade: “A dignidade da pessoa humana radica na sua criação à imagem e semelhança de Deus e realiza-se na sua vocação à bem-aventurança divina” (CIC 1700). “Foi em Cristo, ‘imagem do Deus invisível’ (Cl 1,15), que o homem foi criado ‘à imagem e semelhança’ do Criador. Assim como foi em Cristo, Redentor e Salvador, que a imagem divina, deformada no homem pelo primeiro pecado, foi restaurada na sua beleza original e enobrecida pela graça de Deus” (CIC 1701). Nenhuma criança nasce “danada”. Nasce marcada pelo pecado original, sim, mas já é imagem de Deus e destinatária da salvação.
O Evangelho mostra o carinho especial de Jesus pelos pequenos. Quando os discípulos repreendem as mães que trazem os filhos para que Jesus as abençoe, Ele reage com firmeza: “Deixai vir a Mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos Céus é para aqueles que se lhes assemelham” (Mt 19,14). Mais ainda, Jesus coloca a criança como modelo para todos: “Em verdade vos declaro: se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus. Aquele que se fizer humilde como esta criança será maior no Reino dos Céus” (Mt 18,3-4). E adverte com gravidade quem ousar escandalizá-las: “Mas, se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos que creem em Mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó de um moinho e o precipitassem no fundo do mar” (Mt 18,6).
Chamar uma criança de “danada” é uma forma sutil de escândalo: atribui‑lhe um destino de condenação que Jesus nunca atribuiu aos pequenos. Ao contrário, Ele os defende e os apresenta como caminho de salvação. É verdade que todo ser humano nasce com o pecado original. O Catecismo explica: “Nascidas com uma natureza humana decaída e manchada pelo pecado original, as crianças também têm necessidade do novo nascimento no Batismo para serem libertas do poder das trevas e transferidas para o domínio da liberdade dos filhos de Deus” (CIC 1250). Porém, o mesmo Catecismo mostra a solução divina: “Pelo Batismo todos os pecados são perdoados: o pecado original e todos os pecados pessoais, bem como todas as penas devidas ao pecado. Com efeito, naqueles que foram regenerados, nada resta que os possa impedir de entrar no Reino de Deus” (CIC 1263).
A Igreja batiza as crianças desde os tempos apostólicos, precisamente porque reconhece nelas esta necessidade e esta graça: “A prática de batizar as crianças é tradição imemorial da Igreja” (CIC 1252). Depois do batismo, a criança não é mais “danada”. É filho de Deus, templo do Espírito Santo, herdeiro do Céu. Mesmo as crianças que, por infelicidade, morrem sem Batismo são confiadas à infinita misericórdia de Deus: “A grande misericórdia de Deus, ‘que quer que todos os homens se salvem’ (1Tm 2,4), e a ternura de Jesus para com as crianças […] permitem-nos esperar que haja um caminho de salvação para as crianças que morrem sem Batismo” (CIC 1261).
Os pais não são apenas geradores de vida; são os primeiros educadores na fé. O Catecismo é claro: “A fecundidade do amor conjugal não se reduz apenas à procriação dos filhos. Deve também estender-se à sua educação moral e à sua formação espiritual. O papel dos pais na educação é de tal importância que é impossível substituí-los” (CIC 2221).
“Os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos. Testemunham esta responsabilidade, primeiro, pela criação de um lar em que são regra a ternura, o perdão, o respeito, a fidelidade e o serviço desinteressado” (CIC 2223). Rotular a criança como “danada” fere essa missão. Em vez de ternura e correção amorosa, transmite condenação. Em vez de formar a liberdade para o bem, semeia desânimo e vergonha. Os pais católicos são chamados a abençoar, não a amaldiçoar; a repetir as palavras de Jesus: “Deixai vir a Mim estas criancinhas”.
Chamar uma criança de “danada” é um erro teológico e pedagógico. Contradiz a Revelação bíblica, fere a dignidade conferida por Deus, ignora a graça do Batismo e desobedece ao mandamento de amor que Jesus nos deixou. As crianças não são condenadas; são redimidas, amadas e chamadas à santidade.
Que os pais, em vez de frases duras, repitam o gesto de Jesus: imponham as mãos sobre os filhos e digam com o coração: “O Reino dos Céus é para aqueles que são como eles”. Que eduquem na ternura, na correção paciente e na oração constante. Assim, as crianças crescerão sabendo que são bênção, não maldição; filhos de Deus, não “danadas”.
Que Nossa Senhora, Mãe de Jesus Menino, interceda por todas as famílias e nos ajude a ver em cada criança o rosto do próprio Cristo. Amém.
Referências bibliográficas:
1. Bento XVI. Catecismo da Igreja Católica. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2000.
2. Congregação para a Doutrina da Fé. Instrução sobre o Batismo das crianças.
3. João Paulo II. Exortação Apostólica Familiaris Consortio.
4. Bíblia Sagrada. Tradução da CNBB. Brasília: Edições CNBB.
5. Ratzinger, Joseph. Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola.
6- Francisco, Papa. Exortação Apostólica Amoris Laetitia






